sexta-feira, 12 de março de 2010

Tudo errado

Consumir compulsivamente. Era essa a sua mania, desde muito pequeno. Foi criado em meio à fartura, num ambiente onde a palavra limite não era bem-vinda. Para ter, bastava querer. E assim ele construia a sua felicidade. Achava que todos podiam levar a vida dessa maneira. Sua educação não lhe apresentou diferenças sócio-econômicas. A desenvoltura que lhe era característica marcante não costumava lhe acompanhar fora do seu habitat surreal.

O tempo passou e pouco mudou no seu comportamento. Casou-se com uma mulher de fora do seu mundinho. Logo tratou de transportá-la, não deixando opção. Ela adorou a mudança. Agora, possuia poder e dinheiro. Transformou-se numa madame e em muitas ocasiões negou as suas origens. Abandonou sua carreira e virou dona de casa. Os filhos vieram, a família cresceu e as primeiras dificuldades apareceram. Inicialmente, resumiam-se ao tempo. As crianças demandavam cuidados e já não era possível que os pais vivessem somente para eles. Eis que a palavra limite aparece com força total. Para quem não estava acostumado o impacto foi grande e o desconforto maior ainda.

Discussões, brigas e competição. Essa passou a ser a rotina. O amor entre o casal não tinha mais espaço. Acusavam-se a todo momento. Um achava que o outro fazia menos que podia em prol do coletivo. O marido imaginava que cumpria o seu papel, por ser o responsável por trazer o sustento da casa, com o suor do seu trabalho. A esposa sentia-se cansada, sobrecarregada com as tarefas diárias do lar. O arrependimento sempre transitava em seus pensamentos. Ela não entendia o que a levou abandonar sua profissão. Suspeitava que se deixou levar pelo comodismo. Ele passou a conviver com o insucesso profissional. Os problemas familiares interferiam no trabalho. A empresa da família não andava bem. Parecia que o pesadelo só estava começando.

O que antes era um hobby, com os problemas virou fuga. O consumo inveterado preenchia os vazios. Só que agora as circunstâncias eram diferentes. Os recursos estavam limitados. Restrições de todos os lados. E as trocas de farpas viraram corriqueiras. Vigília sobre os gastos do cônjuge. O inferno parecia ser o próprio lar. Relacionamento perdido, filhos infelizes e futuro temido. O ciclo parecia não ter fim. E eles se perguntavam como e por que as coisas desencadearam para esse caminho.

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